Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Outro país de poeta - a Colômbia (no ípsilon de hoje)


Em Portugal, as antologias colectivas de poesia estrangeira nunca conseguiram ser mais do que projectos descontinuados e, quase sempre, individuais. Até hoje nenhuma editora manifestou a mais ténue intenção de construir de forma crítica e sistemática um conjunto de antologias de poesia de outras línguas, expediente que, a ser levado a sério, daria aos leitores portugueses de poesia um mapa de iniciação sem paralelo na história da publicação no nosso país. Talvez seja justo reconhecer à Assírio & Alvim e à Relógio d’Água um papel menos tímido a este propósito que o das suas concorrentes, mas mesmo aí a publicação é demasiado lacunar e acidental para que se possa falar com propriedade de um projecto.
Serve isto para dizer que basta a publicação de “Um País que Sonha – cem anos de poesia colombiana” (Assírio & Alvim, 2012) para Lauren Mendinueta e Nuno Júdice ganharem um lugar de destaque na divulgação de poesia em língua estrangeira. Isto é, apesar de todo o mérito que esta obra sempre teria fossem quais fossem as condições do nosso panorama editorial, sintomático de uma subalternização da poesia, principalmente se tivermos em conta que estas antologias panorâmicas, pela dimensão e pelos custos, muito dificilmente poderão ser publicadas pelas pequenas editoras que, noutras vertentes da poesia, ainda vão impedindo o oblívio. Livros como este são indispensáveis num universo editorial em que a publicação e a divulgação de poesia estrangeira são por demais insatisfatórias.
“Um País que Sonha” é uma antologia de cem anos da poesia colombiana, não dos últimos cem anos, mas dos que correram desde o nascimento de José Asunción Silva, um dos primeiros modernistas, no sentido de Rubén Darío, que, aliás, constrói um universo estilístico e referencial próximo do grande poeta nicaraguense: “Doente:/ Doutor, um desalento da vida/ que no meu íntimo se enraíza e nasce,/ o mal do século… o mesmo que Werther,/ de Rolla, de Manfredo e de Leopardi./ (…) Médico:/ – Isso é uma questão de regime: caminhe/ pela manhãzinha; durma bem; tome banho;/ beba à vontade; coma melhor; muito cuidado consigo:/ O que você tem é fome…!” (p. 27). A título de complemento, pode-se contar que no dia 24 de Maio de 1986 Asunción Silva pediu a um amigo médico que lhe desenhasse uma cruz no coração, tendo-se suicidado nessa mesma noite com um tiro no lugar assinalado.
Ainda a propósito deste poeta, vários dos textos, de outros autores, que vão povoando esta antologia manifestam uma intertextualidade curiosa com a sua obra, a começar pelo poema de Santiago Mutis Durán (filho de Álvaro Mutis, outro dos grandes poetas colombianos) que tem como título o nome do poeta de Bogotá e que reflecte, de certa forma, os processos de diálogo e conflito que as gerações de poetas colombianos têm mantido com o seu primeiro modernista: “Ao longo de cem anos/ lutámos para que no fim te parecesses/ connosco – donos das tuas cinzas/ A tua integridade/ irrita-nos e envergonha-nos/ A tua dignidade/ ofende/ quem preferiu/ outros caminhos.” (p. 330).
Convém acrescentar que os cem anos retratados nesta antologia correspondem a um período particularmente turbulento da história da Colômbia, marcado por uma grande instabilidade política e social e por episódios de extrema violência, uma época obscura, como aparece descrito no prólogo a esta obra. Ao ler esse texto assinado por Lauren Mendinueta, um leitor não pode deixar de se sentir cativado pela proposição, mostrar a poesia colombiana como “um espelho em que se reflecte a [sua] sociedade” (p. 15), nessa estranheza resultante do facto de a poesia ser contrastante e, ao mesmo tempo, fiel à realidade.
Diga-se que, logo à partida, esta tese, que aparentemente faz todo o sentido no caso colombiano, é muito pouco recomendável na generalização que as palavras da autora, apesar de todo a sua lhanura, dão a entender. Basta pensar uns segundos na nossa própria história, também ela marcada por uma série de períodos obscuros e que, nem por isso, foram poeticamente os mais enriquecedores. Parece que a história da poesia nos permite concluir que o seu florescimento ou a sua agonia dependem muito mais de poetas e muito menos de acontecimentos. O que actualmente se escreve em Portugal é, em parte, prova do que se acabou de dizer.
Isto não afecta, de qualquer forma, o mérito deste trabalho, ao qual deve ser dado o maior destaque. Depois de ler o prólogo não é difícil intuir que se esta antologia chegou às livrarias isso deve-se, em quase toda a sua dimensão, ao esforço pessoal de Lauren Mendinueta. Mas, também, ao excelente trabalho de Nuno Júdice, que traduziu cerca de quatrocentas páginas de poemas de mais de sessenta poetas.
Tal não deve, mesmo assim, impedir que se chame a atenção para alguns dos aspectos menos conseguidos desta antologia. Logo no início do prólogo, a autora refere que “esta não é uma antologia crítica nem exaustiva. A ter sido crítica teria contido menos autores, a ter sido exaustiva teria necessariamente que incluir muitos mais” (p. 14). Uma antologia crítica não se afere propriamente por um critério quantitativo, mas antes por um trabalho de construção e sistematização de uma proposta de leitura que terá, normalmente, um resultado menos inclusivo. Não é pelo número de poetas que inclui que esta não é uma antologia crítica, é pela falta de critério de selecção, que se deve em parte ao número de poetas escolhidos, mas principalmente aos poucos poemas escolhidos de cada poeta, à falta de pistas de leitura sugeridas no prólogo ou nas curtas notas biográficas dos poetas incluídos e à incapacidade de tanto estes elementos como a selecção dos poemas darem a entender aos leitores as singularidades, as propostas e as tensões da poesia colombiana entre 1865 e 1965.
Estes sistemas de apresentação e, mais ainda, de selecção têm o grande inconveniente de nivelar por baixo as antologias. Os poucos poemas que são escolhidos de cada autor – normalmente três ou quatro –, impedem à partida que se perceba que há grandes poetas neste período da literatura colombiana. Mereciam maior destaque autores como Guilhermo Valencia, León de Greiff, Álvaro Mutis ou Gonzalo Arango, este último, ainda assim, antologiado com alguns dos versos mais interessantes deste livro: “Éramos deuses e fizeram-nos escravos./ Éramos filhos do Sol e consolaram-nos com medalhas de lata./ Éramos poemas e puseram-nos a recitar uma esmolinha por amor de Deus” (p. 165). No mesmo sentido, admitindo que cem anos de poesia colombiana terão necessariamente produzido muito mais poetas merecedores de serem antologiados, não é por isso que esta não deixa de ser escolha bastante inclusiva e que, em última análise, acaba por conduzir a uma acumulação de poemas que, tirando cronologicamente, não vem de lado nenhum e não vai para lado algum. Por outras palavras, ao terminar a leitura de “Um País de Sonha” fica-se a conhecer mais de sessenta poetas colombianos mas, infelizmente, pouco se fica a saber sobre a poesia colombiana. É de lamentar que assim seja, principalmente porque fica por demonstrar aquilo que se escreveu no prólogo: a Colômbia é “um país em que se escreve uma grande literatura” (p. 17) ou “é um país de poetas” (p. 14).
Por outro lado, quando Lauren Mendinueta destaca a relevância que os períodos de convulsão e violência da história da Colômbia tiveram nas obras de grande parte dos poetas antologiados, teria sido interessante que este livro procurasse, em parte, mostrar isso mesmo, o que acaba por não acontecer, apesar de algumas excepções, como nos poemas escolhidos de María Mercedes Carranza, uma das melhores sequências deste livro: “As janelas mostram paisagens destruídas,/ carne e cinza confundem-se nos rostos,/ nas bocas as palavras revolvem-se com medo./ Nesta casa todos estamos enterrados vivos.” (p. 253) ou “O assassino dança a Dança da Morte:/ um passo em frente, uma bala no coração,/ um passo atrás, uma bala no estômago (…)/ Todas as línguas da terra maldizem o assassino” (p. 256).
Os reparos que se fizeram devem, ainda assim, ser aliviados. É de louvar que alguém invista tamanho esforço pessoal na divulgação de poesia, pelo que, só por isso, esta antologia merece um enorme elogio. E, mais ainda, porque em quatrocentas páginas de poemas há momentos que conseguem superar o tom geral a que os problemas de trabalho formal acabaram por conduzir: “A poesia é a única companheira/ habitua-te às suas lâminas/ pois é a única” (de Raúl Gómez Jattin, p. 245).



“Um País que Sonha – cem anos de poesia colombiana”, prólogo e selecção de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice, Assírio & Alvim, 2012.

Nota: quatro estrelas.

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Toma lá ó Rousseau

O que faz um gajo ser um grande escritor são frases assim:

"Macbeth's self-justifications were feeble - and his conscience devoured him. Yes, even Iago was a little lamb too. The imagination and the spiritual strenght of Shakespeare's evildoers stopped short at a dozen corpses. Because they had no ideology."

- Aleksandr Solzhenitsyn, The Gulag Archipelago

O demónio da minha natureza


Achei que era melhor não voltar a escrever aqui enquanto o Polga não anunciasse, definitivamente, a saída do Sporting. Tenho andado também muito ocupado a escrever coisas que eventualmente hei-de publicar aqui, mas que entretanto têm que sair em sítios mais decentes para ganhar legitimidade e o camandro. Ando, por exemplo, a escrever sobre The Better Angels of Our Nature, do Steven Pinker.


A tese geral do livro é que, historicamente, a violência entre os seres humanos tem vindo a diminuir, algo que começou a acontecer mais ou menos pelas alturas do advento do Leviathan – gosto sempre quando alguém diz que as coisas boas do mundo têm origem no Hobbes, porque normalmente é ao contrário –, e mais significativamente no século XX, em especial, desde que acabou a Segunda Guerra Mundial, um período a que Pinker dá o nome de “long peace”.
A ideia, como o próprio reconhece, é contraintuitiva. Eu cá diria até que não faz o mínimo sentido, a avaliar pelos meus vizinhos e pelo que tem acontecido no Sporting nos últimos anos, mas também ainda só vou a meio do livro e estou tão disponível para que o livro me convença como estou para aceitar um convite da Eva Green para jantar no Alinea, do Grant Achatz. Agrada-me, pelo contrário, que uma das conclusões possíveis deste livro destrua por completo a antropologia política do Rousseau. Por outro lado, já não me agrada que o Pinker utilize o Leviathan como referência para uma revolução que o Hobbes não fez, nem quis fazer. O bellum omnium contra omnes de Hobbes deve ser visto não apenas como uma descrição teórica da natureza humana na ausência de sociedade civil, mas também como uma parábola sobre os ciclos de vingança. Nesta dimensão, o estado de natureza não se limita a ser um estado em potência, devendo ser assumido como um facto histórico, isto é, como uma ameaça que pesa permanentemente sobre o homem não apenas pelas inclinações egoístas da sua natureza na ausência de poder disciplinador, mas porque historicamente, em períodos de ausência ou insuficiência de poder civil, os sistemas de vingança privada deram corpo – e, já agora, sangue – à guerra de todos contra todos. Pinker só pode, legitimamente, socorrer-se da construção do Leviathan se conseguir provar que o advento do liberalismo cristalizou uma concepção de Estado monopolizador da violência. Aqui a verdade é outra: poucos séculos tornaram mais evidente a fina camada de gelo em que este protótipo de Estado vive como os séculos XIX e XX. E o século XXI vai a caminho. A transferência do corpo místico do rei para o povo, o vaso da soberania desde a época moderna, provocou uma mutação na violência ou, melhor, uma reconfiguração sobre a nova carne soberana, como Foucault intuiu no Vigiar e Punir e como Eric Santner procurou demonstrar no The Royal Remains. Em certa medida, a tese de Pinker não é compatível com aquilo que a época moderna e o humanitarismo metamorfosearam no poder e, principalmente, na incidência da violência sobre o corpo-bios e não apenas sobre o corpo-zōe. Esta transmutação do poder, que se deu nos bastidores da época moderna e do iluminismo, recuperou a violência das ruínas da tirania e reconstruiu-a no centro nevrálgico da política. A violência não diminuiu, o que aconteceu foi que uma das suas partes mais significativas mudou de espada.
Isto recorda-me que há uns tempos ouvi que o Manifesto, do Luis Baena, tinha morrido. Afinal isso não aconteceu, apenas mudou – tal como a violência – de menu:





Terça-feira, 8 de Maio de 2012

A sobrevivência do mais fraquinho


(na imagem pode ver-se Polga a fazer uma má imitação da pose artística para roupa interior)

A propósito desta notícia só tenho o seguinte a dizer:

A capacidade de sobrevivência de certos organismos claramente vocacionados e fadados para a extinção é das coisas deste mundo que mais me surpreende. Por exemplo, uma pedinte portuguesa que andava pelas ruas de Badajoz há quinze anos e que descobri no mês passado que afinal ainda por lá anda.
A Montanha Mágica do Thomas Mann também. Ainda hoje não conheci uma pessoa – viva – que não considerasse o livro, no mínimo, uma grande chatice. Um grave erro, aliás, tem sido até hoje a incapacidade da crítica perceber que o livro vale muito menos pelo “rebolation” filosófico do que pelas qualidades narcolépticas. Mas, por qualquer estranha lei da natureza, essas pessoas acabam por ler o livro até ao fim, como se deixar a leitura inacabada fosse invocar uma espécie de demónio ou transformar o prevaricador num clone do valter hugo mãe.
Contudo, o melhor exemplo histórico da sobrevivência contra todas as probabilidades é a titularidade do Polga no Sporting ou talvez mesmo a sua permanência na equipa principal. Em termos de atributos físicos, visão de jogo, qualidade de passe e amplitude jocosa do nome, o Polga era um daqueles jogadores condenados, à partida, a passar apenas seis meses pelo Sporting ou, vá lá, um ano, à semelhança de tantos outros talentos inesquecíveis como o Angulo, o Koke, o Vujacic, o Motta, o “Pistoleiro” Silva, o Robaina, etc. No caso do Polga não. Até hoje o senhor conta com 19188 minutos na Primeira Liga, repartidos por 221 jogos (uma média de 86,6 minutos em cada jogo) e mais de 6000 minutos nas competições europeias. O Polga, no centro de uma defesa europeia, é um gnu ferido a atravessar um riacho cheio de predadores que, ainda por cima, tem o descaramento de escolher o caminho mais longo e de ser meter nas partes mais profundas do rio.
Quanto a isto tenho uma teoria: o gajo é uma espécie de J. Edgar Hoover do Sporting. Deve saber os podres de meio mundo sportinguista, tipo quem tratava da dieta do Maniche, o verdadeiro sexo do André Santos ou quem é que treinava realmente o Sporting quando o Paulo Sérgio se sentava no banco. Mais que tudo isso, o Polga deve ser das poucas pessoas que tem na sua posse documentos que provam que nos últimos 10 anos, apesar de ter havido presidentes eleitos, o Sporting foi dirigido por um triunvirato composto pelo Snoopy, o Poupas e o Coraçãozinho de Satã. Só isso justifica que um dos piores centrais da história tenha durado no Sporting, por exemplo, mais do dobro do tempo do André Cruz.

Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

Com grandes autores é assim

perché gli è tanto discosto da come si vive a come si doverrebe vivere

Para o Manuel.

Na semana passada estava, até quinta-feira, andava a escrever um post sobre a reacção da imprensa espanhola depois da derrota do Athletic em Alvalade. Estava neste ponto:

“Passei grande parte da minha vida a um “e que tal se fossemos” de distância de Espanha. Todas as semanas, pelo menos uma ou duas vezes, ia a Badajoz às compras, jantar, ao cinema (dobrado em espanhol) ou a concertos. A minha hora de almoço na escola coincidia não com os noticiários portugueses, mas sim com os espanhóis, em especial, com o da Antena 3, uma espécie de SIC lá do sítio, mas em que a pessoa intelectualmente mais limitada pareceria um prodígio da natureza ao lado da Cláudia Vieira ou da Carolina Patrocínio.
Tudo isto para dizer que já estava familiarizado com o peculiar método de descrição que os jornalistas espanhóis utilizam para se referirem aos jogos de futebol em que as suas equipas são derrotadas por equipas estrangeiras, principalmente quando se tratam de equipa portuguesas.
No ano em que o Porto ganhou a Champions, o Deportivo da Corunha perdeu 1-4 em San Siro com o Milan e lembro-me de um comentário épico no jornal da noite da TVE em que diziam que o golo do Pandiani mantinha a esperança dos galegos viva. Passado uma semana os gajos espetaram com 4 golos sem resposta ao Milan e passaram à fase seguinte, apesar de o terem feito para depois serem eliminados com um golo de penalty do Derlei. Face a isto, tenho-me colocado uma questão: o comentador acreditava mesmo no que estava a dizer ou, pelo contrário, estava apenas a praticar a mesma vertente de chauvinismo que obrigava o Pedro – de Barcelona – a insistir em falar espanhol com uma empregada do Pink Palace de Agios Gordis depois de quatro dias a saber que ela apenas falava grego?”

E pronto, o texto ficou por aqui porque, entretanto, lá veio a segunda mão e um árbitro inglês, que diligentemente fez aquilo que os ingleses se especializaram em fazer aos portugueses, que é lixar-nos a vida (o negócio dos vinhos, a questão do ultimato, o Cliff Richard com casa no Algarve, etc).
Já agora, não sei se isto vem a propósito, mas no sábado passado vi a Joana Amaral Dias e fiquei surpreendido com a desestabilização que a senhora, com um simples gesto de aproximar o gargalo de uma garrafa de cerveja dos lábios, conseguiu introduzir num universo habitualmente harmónico. Parecia um buraco negro a esparguetificar todos os objectos em seu redor.
Aproveito também para vos falar da minha nova obsessão culinária, depois de dos risottos, das sopas e dos bifes: o peixe. Até há uns tempos, a minha forma de cozinhar peixe resumia-se a uma de duas hipóteses: pôr douradinhos de pescada ou salmão no forno pré-aquecido a 200 graus e esperar 15 minutos; cozer um ovo e duas postas de pescada da Pescanova e, depois, regar com azeite. Ou seja, eu tinha conhecimentos de cozinhar peixe tão vastos quanto a amplitude de recursos literários do José Luis Peixoto.
Anteontem consegui fazer aquele que foi, até ao momento, o meu melhor prato de peixe: uns filetes de peixe-galo salteados em manteiga e alho, que depois foram ao forno durante uns 8 minutos a gratinarem com molho de tomate (caseiro) e queijo de Serpa. Fiquei tão extasiado que me esqueci de tirar uma fotografia. Por isso, as únicas amostra que tenho dos meus projectos bem-sucedidos de confecção de peixe são uns filetes, também de peixe-galo, em azeite, alho, tomilho e uma erva qualquer que entretanto me esqueci qual foi e que pela foto não consigo identificar (se alguém conseguir que me ajude, porque me esqueci de anotar a receita).


Num campeonato em que já sou mais profissional, para comemorar o aniversário de um amigo, construí o Marilyn Moore, também conhecido como variação sobre três coisas americanas: um cheesecake, manteiga de amendoim com geleia e um shot de bourbon.
No lugar do cheesecake, fiz uma espuma de mascarpone e queijo Filadélfia semelhante à que já aqui mostrei umas quantas vezes, só que desta vez com um gel de frutos silvestres por baixo e framboesas desidratadas por cima.




A manteiga de amendoim com geleia foi transformada num pó de manteiga de amendoim e peta zetas de chocolate, com uma esfera de framboesa a fazer de geleia.



Por último, o shot de whisky, do qual não tenho fotos, foi complementado com caviar de doce de maçã e de doce de marmelo.


Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

1300 Taberna (publicado no Cão Celeste #1)

 
ao António Sérgio, pela Hora do Lobo
para a Cátia, pelos nossos dois anos no Lx Factory


I

A minha relação com o complexo Lx Factory tem contornos psiquiátricos. Durante dois anos da minha vida, por obrigações profissionais e emocionais, tive que passar por lá quase todos os dias da semana. No início quase não havia nem lojas nem restaurantes e o meu tempo de espera, sempre à noite e por volta das onze, era gasto a caminhar aleatoriamente à volta dos armazéns. Ao fim de duas semanas já conhecia aquilo tudo, pelo que acabei por desistir dos passeios. Ficava no carro a ouvir “A hora do lobo” na Radar, um programa que, só com o tempo, consegui perceber o quão importante era para mim. Entretanto o António Sérgio morreu e eu resolvi regressar aos passeios pelo Lx Factory. Nessa altura já o número de lojas e bares tinha aumentado e, com isso, o número de visitantes também. Nas noites de quinta e sexta tornou-se difícil encontrar lugar para estacionar no sítio em que eu costumava pôr sempre o carro. Não gostei deste acréscimo demográfico e, por isso, voltei a refugiar-me dentro do carro, excepto uma ou duas vezes por semana, quando saía para me sentar um pouco no andar de cima da Ler Devagar e, de vez em quando, comprar alguns livros.
Há cerca de um ano e meio as obrigações profissionais e emocionais que me arrastavam quase todos os dias para o Lx Factory cessaram e, por isso, deixei de lá pôr os pés. Apesar das coisas boas que tinha, senti-me aliviado e, por razões freudianas, passei a associar aquele lugar ao cumprimento de obrigações não muito agradáveis de cumprir, o que acabou por me afastar das proximidades. Desde então, apenas tinha regressado duas vezes: uma festa de merda organizada (e apresentada) pelo Fernando Alvim; uma ida àquele sítio em que, supostamente, fazem pizzas tão boas quanto as do Casanova mas que, afinal de contas, nem sequer são tão boas quanto as do Esperança. Contudo, tanto numa situação como noutra estou certo que os meus recalcamentos com o espaço prejudicaram em muito as poucas hipóteses que, mesmo assim, eu tinha de desfrutar do momento.
O que me fez regressar ao Lx Factory foi um acontecimento que, definitivamente, ficará como um marco na minha vida de epicurista: o livro sobre os restaurantes e lojas de comida de Lisboa do Miguel Pires, chamado Lisboa à Mesa (Planeta, 2011). Depois de ouvir uma entrevista dele com a Inês Menezes e, principalmente, depois de ler meia dúzia de anotações que ele faz a alguns dos meus spots preferidos de Lisboa, confesso que me senti feliz por descobrir que afinal existe outro aficionado de comida parecido comigo. Não quero com isto dizer que não gosto de outros críticos gastronómicos, porque existe o Lourenço Viegas, só para dar um exemplo de grande qualidade, mas enquanto apreciador de comida ele tem muito pouco a ver comigo. Gosto muito mais daquilo que ele escreve do que de grande parte dos restaurantes sobre os quais ele escreve bem e até gosto de alguns com os quais ele embirra. Com o Miguel Pires é o contrário, não sou propriamente um fã incondicional daqueles resumos de um restaurante em dois ou três parágrafos, apesar de ele os escrever quase sempre bem, mas o espírito gastronómico do homem diz-me mais que milhares de caracteres ocupados por grande parte dos nossos críticos. A título de exemplo, aquilo que ele escreve sobre o Martim Moniz, sobre Telheiras ou sobre a comida do sudoeste asiático é-me muito familiar.
Para quem tem uma compreensão de Lisboa governada pelos lugares onde passa um eléctrico – e acreditem que tenho conhecido muitos destes cretinos – Telheiras é arredores. Não vou tão longe, mas tenho que admitir que é uma zona sem qualquer encanto paisagístico e aquela história do bairro dos doutores e engenheiros na maioria dos casos apenas eleva o espírito suburbano de muitos dos locals a níveis insuportáveis de presunção. Alguns dos meus vizinhos representam aquele tipo de pessoa que seria imediatamente fulminada pelos raios de um deus justo, caso vivêssemos num universo fraterno e equilibrado. Claro que esta minha ideia de que um universo fraterno e equilibrado incluiria um deus ocupado em fulminar pessoas diz muito mais sobre mim que sobre os meus vizinhos. Mas pondo isso de parte, o autóctone típico de Telheiras é aquele indivíduo que tem escarrapachado no rosto a responsabilidade, pela passiva, da situação a que este país chegou e que, como se isso não fosse já mal suficiente, ainda se atreveu a procriar. Mas Telheiras tem as suas jóias e o Miguel Pires destaca duas que fazem parte dos meus rituais semanais de compra de comida: a padaria Espigasol (Rua Professor Dias Amado, Loja 1 B e 1C) e o Talho Gourmet (Rua Professor Francisco Gentil, Edifício E, na loja 2E). Este último, principalmente, é um lugar especial, onde me arranjam os bocados de osso para fazer o tutano assado com paprika e salada de salsa.
Mas voltando ao que estava a escrever, o guia do Miguel Pires pôs-me em contacto com um crítico que come e compra comida exactamente como eu quero comer e comprar. Por isso, desde que o comecei a ler tenho procurado orientar as minhas escolhas de restaurante por ele e, assim, fui parar à 1300 Taberna, que fica em pleno Lx Factory.
Há já uns tempos que sonho com restaurantes. Não com restaurantes específicos e geograficamente identificáveis, mas antes com lugares imaginários nos quais eu estaria a trabalhar como cozinheiro. Ultimamente, tenho procurado dar contornos mais palpáveis ao restaurante imaginário e, acordado, até já concebi parte de uma ementa e alguns dos detalhes decorativos. É uma espécie de second life mental e, por enquanto, isso vai perfeitamente de encontro à dimensão das minhas ambições de cozinheiro. Falo sobre isto não tanto por terapia, mas mais porque a 1300 Taberna é capaz de ser, em termos de espaço, aquilo que mais se aproxima do que projectei para o meu hipotético restaurante. Fica num antigo armazém, transformado num enorme espaço aberto de aspecto industrial, com vista para uma cozinha também ela aberta. Este é um dos melhores detalhes e ao mesmo tempo aquele que mais faz sofrer o tipo de gajo que eu sou e que fica a olhar com inveja profissional para os cozinheiros enquanto espera pela comida. Todos os restaurantes do mundo deviam ter a cozinha à vista dos clientes, não só pelas vantagens em termos de análise higiénica, mas também pelo aspecto artístico da coisa.


II


Mesmo antes de receber a ementa já me tinha decidido por umas gambas de aspecto fabuloso que os meus vizinhos de mesa estavam a comer. Acabámos por pedir três entradas – as tais gambas, a que eles chamam “gambas aos saltos”, uns croquetes de pernil de porco e mais uma outra coisa que responde pelo nome de “as três chamuças” – e dois pratos principais – um folhado de perdiz com legumes e um hambúrguer com um nome aparvalhado, “a grande amburga da 1300 Taberna”.
Antes de passar a estas comidas, contudo, vou escrever umas linhas sobre o pão que trazem para a mesa. O pão é caseiro e de três tipos diferentes: focaccia, pão de cerveja preta e pão de manteiga e tomate. O focaccia é o meu preferido, mas os outros dois também são bons. Já o azeite e as pastas que trazem para a mesa não merecem qualquer destaque. O azeite é simples, sem ervas ou flor de sal que tornem minimamente decente o preço que cobram e as pastas são absolutamente indiferentes.
As gambas e as chamuças foram o ponto mais alto da noite. As gambas estavam cozinhadas no ponto e, graças a deus, praticamente descascadas. Não se trata de um simples pormenor, porque se uma pessoa quer descascar as suas próprias gambas, depois também não quer pagar 10 euros por quatro delas, o que muito restaurante presunçoso ainda não percebeu. Acompanham com umas fatias de pão tostado que é para ensopar no molho de saltear as gambas, onde se nota perfeitamente o azeite, o alho, o gengibre e o limão.
Já as chamuças são uma variação fresca e menos rica de folhados de queijo de cabra, bem diferente daqueles que agora uma pessoa vê nos menus de tudo o que é restaurante arrivista e que normalmente indiciam cozinheiros com problemas de insegurança. A massa é estaladiça e sem qualquer excesso de gordura, o queijo de cabra não é excessivo nem é uma daquelas pegajosices demasiado ricas. Acompanha com cebola reduzida em vinho (creio que do Porto?). É uma combinação semelhante ao trio Schaars, Capel e Wolfswinkel, quando estes eram uma coisa estupidamente bonita de se ver. Os croquetes têm uma textura interessante, mas deixam um sabor estranho na boca que não só não é nada agradável, como também não é nada sensual.
Apesar de, pelo nome, parecer a promessa de uma alternativa feliz a qualquer teologia, “A grande amburga da 1300 Taberna” afinal é um hambúrguer de vitela caseiro que acompanha com tomate (escalfado ou confitado?), alface, um cogumelo de dimensões John Holmes, queijo da Ilha de São Jorge e ketchup caseiro. Melhor só mesmo se completassem a coisa com um bocadinho de foie, mas isso se calhar já era pedir demasiado. Há que acrescentar que a carne do hambúrguer até é deliciosa e cozinhada no ponto, parecendo mesmo caseira, em vez daquelas de produção industrial que por aí se apanham. Talvez um bocadinho menos de acréscimos em líquido ajudasse, porque ao fim de algum tempo o brioche (excessivamente doce) em que servem o hambúrguer fica completamente ensopado. Acompanha com umas batatas que eles chamam “batatas taberneiras”, mas que, na verdade, não são tão boas assim como para merecer um nome distintivo.
O folhado de perdiz, tal como o hambúrguer, teve partes boas e más. A massa estava bem cozinhada e com um sabor agradável. Mas os legumes que compunham o resto do recheio já não. Legumes é, aliás, um exagero, porque apesar de ser visível a presença de bocados de vários tipos de legumes, o sabor a cebola geral tornou-os impossíveis de identificar no paladar. Outro ponto fraco do recheio foi a consistência, que estava demasiado aguada.
O apartado das sobremesas teve um ponto alto, uma confirmação e um tiro ao lado. Começando pelo ponto alto, eles têm na ementa uma coisa a que deram o nome de “homenagem Snickers” e que é uma reinvenção fabulosa do chocolate snickers, composta por bolo e creme de chocolate, calda de caramelo com amendoins e gelado de manteiga de amendoim. Não consigo encontrar melhor expressão gastronómica daquilo que seria o meu sonho erótico culinário.
O tiro ao lado, muito ao lado mesmo, é a sopa de morango com mousse de iogurte grego. A parte da mousse de iogurte não estava má de todo mas também nada de especial, havendo no supermercado fermentações bacterianas com melhor sabor e, já agora, o trabalho com a textura não revelou uma grande ginástica na execução. Já a sopa de morango foi uma aldrabice hercúlea: aguada, não sabia nem a morango, nem a canela, nem a algo que seja próximo do que entendo como doce ou, pelo menos, agradável. Chega a parecer que partiram de uma boa sopa de morango e que, por puro masoquismo, juntaram água à mistura. Péssima opção.
Por último, provei também um dos pratos de assinatura da 1300 Taberna, o famoso “Bolo Eusébio”, e confirmei que se trata de um bolo de chocolate – muito chocolate mesmo – que é bastante bom. Não é uma sobremesa elaborada, mesmo com o sorvete de morango (ou outro fruto silvestre?) a acompanhar, mas é o equivalente a um bom sofá e uma manta, um belo conforto, apesar de eventualmente poder ter consequências para a saúde bem piores que o sedentarismo.
Aquilo que de mais estranho fica, depois de uma refeição na 1300 Taberna, é a sensação de que a cozinha é partilhada pela Florence Nightingale e pelo David Brent. Alguns dos pratos parecem ter sido confeccionados com uma bondade extrema, outros parecem ser piadas constrangedoras ou de mau gosto. As chamuças e as gambas não indiciam o acidente que é a sopa de morango, da mesma forma que não parece ser possível que o recheio do folhado e a “homenagem Snickers” venham da mesma cozinha. Talvez o conceito de cozinha experimental em que este restaurante se coloca (cfr. o livro de receitas da “irmã” 2780 Taberna) pudesse justificar parte desta inconsistência, à qual assistimos num registo quase demencial. Mas, para ser honesto, uma sopa de morango ou um folhado de perdiz não são propriamente o pós-modernismo da gastronomia. 












Terça-feira, 17 de Abril de 2012

Nemesis: o significado político da vingança (terceira parte)

3.      A transição entre a vingança privada e a justiça pública
Um dos passos mais decisivos na evolução do Direito penal de uma determinada comunidade é a transição de um sistema de vingança privada para um sistema de punição público. Assim sucedeu em Roma, cujas instituições primitivas que reconheciam e aplicavam a vingança privada a pouco e pouco foram abandonando este sistema de repressão criminal em favor de uma justiça pública.
Maugrado a visão romantizada dos povos germânicas veiculada pelos defensores da teoria da paz, a tendencial publicização do direito de punir, que, na Europa, se verificou com maior intensidade a partir da Baixa Idade Média, foi buscar o seu influxo decisivo ao Direito romano e ao Direito canónico, numa clara agenda de política criminal de reacção contra a vingança privada e num movimento semelhante e indissociável da tendência para a corporização do Estado[i].
De facto, os monarcas legisladores procuraram dar resposta à potencial escalada de violência que a contenda poderia acarretar. O seu objectivo primário era simples, limitar a contenda às partes envolvidas e evitar que esta se alastrasse aos parentes opositores. Esta preocupação é particularmente evidente numa lei do monarca norueguês de 1270, da qual William Ian Miller transcreve um pequeno excerto:
May it know to all that a barbaric custom has prevailed in our countries for a long time: when a man has been killed, His kinsmen want to remove the best man in the [killer’s] family, even though he is ignorant and innocent of the slaying. And they do not want to avenge themselves on the real killer, even when they have an opportunity to do so.[ii]
Na sombra deste primeiro objectivo de restrição crescia, contudo, uma aspiração de maior relevância: um clima de paz que possibilitasse e favorecesse a centralização de todos os poderes na pessoa do monarca, uma das heranças mais desejadas do ordenamento jurídico do Império Romano.
Contudo, a transição entre estes dois sistemas de repressão criminal correspondeu, tal como em Roma, a um processo relativamente lento, pouco linear, pleno de avanços, retrocessos e peculiaridades nacionais e locais onde quer que detenhamos a nossa atenção. Por outro lado, durante largos períodos, estes dois sistemas de punição conviveram e sobrepuseram-se, das formas mais variadas, também sujeitas às referidas peculiaridades[iii].
Um exemplo desta situação é o caso francês, no qual os dois sistemas coexistiram durante largos períodos. O movimento de transição entre um sistema de vingança privada e um de justiça pública teve o seu início na legislação das dinastias Meronvíngia e Carolíngia[iv]. Por influência do Direito público romano e do Direito canónico, o sistema público de punição foi-se desenvolvendo e os crimes começaram a ser observados não como meras ofensas particulares, mas antes como violações da ordem pública.
Contudo, nem nos quatro séculos de hegemonia franca nem posteriormente, os sistemas de vingança privada chegaram a desaparecer por completo. Prova disso são os casos suscitados entre 1320 e 1330 perante o Parlement[v], como o de Guillaume de Léans que confessou ter ordenado ao seu filho que agredisse a filha de outro homem como vingança pelas ameaças e troças dirigidas contra eles por esse homem, ou como o caso de Jourdain de l’Isle, acusado de actos de violência contra mercadores, homens do clero e, inclusivamente, nobres, o qual se defendeu afirmando que se encontrava numa situação de guerra e que, como tal, as suas acções tinham como justificação a sua própria defesa e dos seus homens[vi].
No caso da Península Ibérica, como se disse, a monarquia visigótica procurou cercear os antigos costumes germânicos trazidos pelos visigodos, incompatíveis com as ideias cristãs contrárias à violência e com a supremacia das autoridades públicas. A monarquia visigoda embora tivesse origem germânica, foi decisivamente marcada na sua evolução histórica pelo contacto com a cultura romana, de tal forma que o seu sistema de Direito penal, ao igual que o de Roma, é público e baseado na concepção subjectiva do delito[vii]. De entre estes costumes germânicos combatidos pelo Direito visigótico, destacava-se a vingança de sangue[viii].
Este esforço centralizador do poder punitivo encetado pela monarquia visigótica e inspirado pela Igreja Católica foi, contudo, infrutífero. O Código Visigótico, teoricamente um triunfo da romanização e da interferência eclesiástica sobre os costumes germânicos, na prática não teve particular aplicação e é de crer que algumas das suas disposições não tenham chegado sequer a aplicar-se, enquanto outras apenas terão sido aplicadas transitoriamente[ix]. De facto, como refere Eduardo de Hinojosa, os primeiros monumentos jurídicos posteriores às invasões muçulmanas evidenciam já uma influência revigorada dos costumes germânicos nas esferas do Direito processual e do Direito penal[x].
Por outro lado, a falência do Reino Visigótico, encurralado no norte da Península Ibérica pelas invasões muçulmanas, pôs fim às pretensões centralizadoras dos monarcas que passaram a ter como principal preocupação a guerra contra o Islão, favorecendo o ressurgimento do Direito consuetudinário germânico que, verdadeiramente, nunca tinha sido totalmente banido pela legislação visigótica[xi]. Não podemos esquecer, igualmente, que as invasões árabes trouxeram para a Península Ibérica uma série de instituições consagradas no Direito islâmico, entre as quais, a vingança privada.
Foi, portanto, esta a situação com que tiveram de lidar os primeiros reis da monarquia portuguesa, carentes de autoridade e força e, porque não dizê-lo, de oportunidade, para combater este direito consuetudinário “que vigorava com irresistível ímpeto”[xii].
As primeiras iniciativas legislativas de origem régia que procuraram disciplinar o exercício da vingança datam da Cúria de 1211, durante o reinado de D. Afonso II. Destacam-se, em especial, dois diplomas.
A primeira dessas leis (a Lei V da edição dos Portugaliae Monumenta Historica[xiii]) determina que:
Aquele que padeçeo o torto nom Seia ousado de derribar as casas daquele que lhi fez o torto nem se chegue a elas peras as derribar nem lhi corte vinhas nem lhi destrua aruores nem outras possissões.[xiv]
Proíbe-se, assim, o exercício da vingança contra a casa do ofensor. A mesma lei determina ainda que se o ofensor declarar “dante dous homens boons” que quer “correger” o delito que cometeu, os ofendidos estão obrigados a aceitar a composição[xv].
A segunda lei (a Lei XIII da edição dos Portugaliae Monumenta Historica[xvi]), prescreve que:
Porque mujtas uezes as maldades se as homem nom tolhesse creçem e duu omezio em no começo nom seer fijndo seguesse gran dano do Reyno e das gentes. Stabeleçemos que os omezios ia fectos e os que daqui en deante naçerem sseiam fijndos en esta guisa conuem a saber. Se omezio for começado per morte dalguém e da outra parte for morto ahijnda que mais ualha tal omezio seia fijndo e guardado ao que mais ualer seu corregimento per auer ou per açoutes ou per outra guisa assy como nos ou os nossos Jujzes uirmos por dereyto.[xvii]
Desta forma, procurava-se terminar com as contendas em que já tivesse morrido um homem de cada parte, ao mesmo tempo que se privilegiava a composição como meio de resolução das hostilidades[xviii]. A lei previa ainda que o caso homicídio não fosse derivado de uma situação de inimizade resultante de uma morte anterior, a composição era obrigatória. O incumprimento desta obrigação de composição implicava o pagamento de uma multa de 500 soldos de ouro e a sujeição do ofensor à proscrição[xix].
Estas leis, como ficou evidente, apenas procuravam restringir o recurso à vingança privada e cercear o clima de violência que poderia resultar das situações de inimizade. Só mais tarde, já no reinado de D. Afonso IV, as leis régias vão começar a proibir em termos gerais o recurso à contenda, primeiro ressalvando a hipótese de vingança privada entre os fidalgos e, posteriormente, proibindo-a também entre estes, sob pena de morte:
Conuem saber que huu fidalgo matar a outro fidalgo padre ou madre ou Jrmãao ou outra pessõa por que el per si segundo o costume antigo podia acoomhar. Ou se alguu fidalgo laidir outro fidalgo ou lhe cortar braço ou perna ou lhi talhar outro nembro. Ou lhi fazer outra muy grande desonra ou gran uiltança que seja mais receada e de maior uergonça que cada hua destas. Mandamos que se o fidalgo acoomhar por cada hua das dictas cousas que moira porem commo na dicta ley he conteudo.[xx]
4.      Em jeito de conclusão
A primeira fase do processo jurídico de limitação da vingança foi, como se viu, a sua disciplina. Tal situação corresponde, desde logo, a uma consequência natural do estádio de desenvolvimento da sociedade política, ainda longe de um verdadeiro ius puniendi, isto é, um poder punitivo com origem na competência soberana do Estado para considerar como crimes determinados comportamentos humanos e fazer-lhes corresponder sanções específicas, e também de uma centralização do poder na figura do soberano que abre caminho ao monopólio da punição estatal.
Não obstante, há que matizar esta conclusão. Não estamos perante um processo estritamente cronológico, uma vez que só assim se explica que uma explícita proibição da vingança de sangue por parte do Código Visigótico tenha precedido um ressurgimento vigoroso dos costumes germânicos nas esferas do Direito processual e do Direito penal no período subsequente às invasões muçulmanas da Península Ibérica. Se é verdade que estamos perante um processo evolutivo, não pode ser ignorada a sua oscilação em função da maior ou menor complexidade das estruturas governativas da comunidade política e, também, das ambições dessas estruturas.
Como última nota, não pode deixar de se reparar numa das possíveis decorrências deste processo histórico. As teses daqueles que centram a função do Estado na manutenção da paz e na preservação da segurança, encontram aqui um dos seus argumentos mais fortes. As leis que estão na origem de um dos mais elementares pilares do Estado de Direito, o monopólio estadual do direito de punir não tinham outra ambição que a garantia da segurança e a negação de um sentido jurídico e político da inimizade privada.
As consequências e as implicações desta conclusão são inúmeras e impossíveis de resumir no propósito deste texto. Mas uma pode ser adiantada: o Estado é, por natureza, uma contra-afirmação fáctica do estado de natureza hobbesiano, no sentido em que uma das suas afirmações mais vigorosas é a de que a guerra apenas pode acontecer sob a sua égide. A ideia de que a guerra é conduzida pelos Estados não é o único corolário desta afirmação, porque, muito mais do que isso, o que se está a dizer é que a guerra é, na sua essência, um fenómeno puramente político, prévio e independente da disciplina de qualquer ordenamento jurídico. A máxima Inter arma enim silent leges não é, por isso, a afirmação da guerra como um estado de ilegalidade, mas sim como essencialmente político.


[i] v. Rui de Albuquerque e Martim de Albuquerque, História..., cit, p. 224.
[ii] v. William Ian Miller, Choosing the Avenger..., cit, p. 165, e Trevord Dean, Crime in Medieval Europe..., cit, p. 106.
[iii] v. Trevord Dean, Crime in Medieval Europe..., cit, p. 104.
[iv]During this period the royal policy followed in general two lines. On one hand, it sought, as we have shown, to direct or modify the process of private prosecution (…). On the other hand, it struck out into uncultivated fields of regulation, developing a state initiative in prosecution and punishment” (v. Julius Goebel, Jr., Felony and Misdemeanor..., cit, pp. 62 e 63).
[v] A propósito da formação e organização dos Tribunais do Rei, v. Jean Brissaud, A History..., cit, p. 432 e ss.
[vi] v. Trevord Dean, Crime in Medieval Europe..., cit, p. 105; e Joseph Kicklighter, The nobility of English Gascony: the case of Jourdain de l'Isle, in «Journal of Medieval History», vol. 13, n.º 4 (Dezembro), 1987, pp. 327-342.
[vii] Jesús Lalinde Abadía, Derecho Histórico Español, 3.ª ed., Editorial Ariel, Barcelona, 1983, p. 361 e ss.
[viii] “Las tradiciones germánicas quedaban firmemente excluidas ante el modo bastante refinado y detallado con que el código trata las causas de homocidio” (v. P. D. King, Derecho y sociedad en el Reino Visigodo, Alianza, Madrid, 1981, p. 287); v. também, Eduardo de Hinojosa, El Elemento Germânico..., cit, pp. 9-11; Marcello Caetano, História do..., cit, p. 249 ; e Rui de Albuquerque e Martim de Albuquerque, História..., cit, p. 224.
[ix] Eduardo de Hinojosa, El Elemento Germânico..., cit, p. 10; José Orlandis, Las Consecuencias..., cit, pp. 62.
[x] v. Eduardo de Hinojosa, El Elemento Germânico..., cit, p. 11.
[xi] v. ibidem, pp. 11 e 12.
[xii] v. Marcello Caetano, História do..., cit, p. 254; e Rui de Albuquerque e Martim de Albuquerque, História..., cit, p. 224.
[xiii] v. ibidem nota anterior.
[xiv] v. Livro das Leis e Posturas, Lisboa, 1971, p. 11.
[xv] v. Marcello Caetano, História do..., cit, p. 254.
[xvi] v. ibidem; e Rui de Albuquerque e Martim de Albuquerque, História..., cit, p. 224.
[xvii] v. Livro das Leis e Posturas, Lisboa, 1971, pp. 14 e 15.
[xviii] v. Marcello Caetano, História do..., cit, pp. 254 e 255; e Rui de Albuquerque e Martim de Albuquerque, História..., cit, pp. 226 e 227.
[xix] “E se contra esto que no mandamos alguém quiser hir nom querendo finjr o omezio seia peado en quinhentos soldos douro. E nos como uirmos que he mester deyta lo emos fora da terra” (v. Livro das Leis e Posturas, Lisboa, 1971, p. 15); v. Marcello Caetano, História do..., cit, p. 254.
[xx] v. Livro das Leis e Posturas, Lisboa, 1971, pp. 287 e 288.

Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

William, it was really nothing

Os meus pais sempre me disseram que eu coloco os pés duma forma estranha. Acontece que isso nunca os preocupou e a mim ainda menos. Só que agora li o texto daquela espécie de Walter Jenkins dos elevadores que é o José António Saraiva e fiquei preocupado, porque posso estar enganado relativamente à minha orientação sexual.
Bom, na verdade não estou assim tão preocupado, porque eu faço coisas bem másculas como empratar e enfeitar quase toda a comida que cozinho. Isso são coisas de homem. Preocupa-me mais o facto de haver gente a investir dinheiro no José António Saraiva e no SOL, porque se a ideia é só esbanjar capital bem que podiam, por exemplo, queimar notas de 100 dólares ou pagar um polícia para impedir que andem arquitectos velhos a tentar engatar jovens no elevador dos Armazéns Chiado ou, então, financiarem-me um doutoramento na Universidade de Chicago ou uma bolsa no Institute for Advanced Studies. Preocupa-me também que este texto apareça numa secção a que se deu o nome de “Política a Sério”. Se o Tiago Nené publicasse um livro chamado “Poesia a Sério” eu ficava chateado e o mundo ia ressentir-se disso, tal como o mundo se manifesta quando o José António Saraiva publica inanidades numa coluna chamada “Política a Sério” ou pensam que os sismos na Indonésia e a crise entre Israel e o Irão não têm nada a ver com isto?
Outra pessoa com opiniões que eu tenho dificuldade em classificar como “políticas” ou, até, como inteligíveis, é a Helena Matos, mas, felizmente para esse caso, existe uma espécie de Edward Said a pôr as coisas em ordem, como a Priscila Rêgo: “Certamente que a Helena Matos não defende que a qualidade dos médicos do falecido João Paulo II devia ser avaliada através do estado de saúde do anterior Papa. O que conta é o valor acrescentado do serviço, que implica deduzir ao output (a saúde) os inputs relevantes (a saúde do Papa antes de ser tratado pelos médicos). Contornar esta "contextualização" é como avaliar a qualidade do cabeleireiro da Helena Matos através daquilo que vemos nas suas intervenções televisivas. Não se faz.

Terça-feira, 10 de Abril de 2012

Uma das vantagens de um regime monárquico...

É que de tempos a tempos os gajos mamam com um balázio.

Memento mori, empadão de carne e jogo do Sporting

Não tenho escrito sobre comida nos últimos tempos. Também não tenho comido fora nos últimos tempos, o que justifica em parte a escassez de textos no blogue. Mas nem é essa a principal razão, o que acontece é que andei a reler o The King’s Two Bodies do Ernst H. Kantorowicz e dei-me conta de que é o livro mais relevante da minha vida, mas já vamos a isto. Primeiro quero falar sobre a minha última experiência culinária e a curiosa analogia com o jogo entre o Sporting e o Benfica de ontem.
Há já uns meses que andava para experimentar uma shepard’s pie (no original, um empadão com carne de borrego picada). Desde um episódio do Gordon Ramsay com uma família disfuncional de americanos de origem irlandesa que andava com o empadão fisgado e não me pareceu haver outra altura melhor para comer este prato que esta em que a malta cristã se atira aos coitados dos borreguinhos como o Paco Bandeira às mulheres.
Por qualquer razão, julgo que psiquiátrica, estava com algum medo de que a coisa me corresse mal. E de início até correu, porque tentei convencer a pessoa encarregada de fazer as compras a comprar borrego e, ao invés, apareceu-me com carne de vaca picada com chouriço. Não deixa de ser irónico o facto de ter pensado em comer borrego por causa de uma certa picardia teológica e ter acabado a comer pedaços de um animal que os meus antepassados não comiam por razões religiosas.
Há pratos que, a meio da preparação, já sei que vão saber muito bem. Quando dou a primeira volta a um bom bife na frigideira e vejo aquela superfície caramelizada, que é das coisas mais estupidamente sensuais do mundo, começo logo a salivar. Há outros até que já nunca ficam mal, como um risotto ou uma carbonara.  No caso desta variação sobre a shepard’s pie andei um pouco a medo, a provar e a corrigir temperos a cada passo, como se a carne picada fosse uma espécie de filha mimada e eu um pai inconsistente sem qualquer capacidade de desencantar um par de estalos no arquivo dos recursos educativos.
E eis que, aqui, se estabelece uma curiosa analogia com o jogo entre Sporting e o Benfica. Uma análise objectiva do processo culinário leva-me a concluir que nunca corri o mínimo risco de não acertar com a receita e com o sabor, tal como o Benfica não correu o mínimo risco de praticar aquilo que se pode chamar um jogo tendente a boa hipótese de vencer. Nunca a vitória do Sporting esteve em causa porque mesmo que o penalti tivesse sido marcado o mais certo era o Cardozo meter a bola na bancada ou acertar em cheio no lombo do Patrício. E mesmo que a bola tivesse entrado, o mais certo era o Wolfswinkel ter menos vontade de mostrar que o Patrício não é o único grande guarda-redes da Primeira Liga. Aposto que em 95% dos universos paralelos, com diferentes incidências, o resultado foi uma vitória do Sporting. Umas últimas palavras sobre este assunto para falar sobre a mais significante evidência de que o Benfica, nestes termos, não tem grande hipótese de ser campeão. Se o Jorge Jesus é, como dizem, do Sporting, então não deve ter acompanhado as épocas do Paulo Bento como treinador, porque uma equipa que deposita a esperança de uma vitória na entrada em campo do Djaló está condenada a não passar do segundo lugar.
Regressando ao empadão. Deixo aqui a receita que segui e que é infalível como o meio campo do Sporting, desde que jogue como ontem e não como em Setúbal ou em Barcelos. Colocar a carne picada numa frigideira com um pouco de azeite e dar cor à carne. Ao fim de uns dois minutos juntar uma cenoura, um dente de alho e uma cebola, tudo ralado, e misturar com a carne até os vegetais se dissolverem numa espécie de puré. Depois juntar pasta de tomate, umas gotas de molho inglês, um copo de vinho tinto, manjericão e alecrim. Quando o álcool do vinho tiver evaporado, juntar 200 ml de caldo de galinha, pôr a chama do fogão no mínimo e deixar reduzir entre dez a quinze minutos.
Para o puré, cozem-se as batatas e depois esmagam-se. Tempera-se com sal e pimenta, juntam-se duas gemas de ovos e parmesão (numa quantidade mais ou menos equivalente à cocaína que o Keith Richards mete nas fuças) e depois envolve-se tudo até se obter um puré uniforme. Depois é arranjar uma travessa destas fundas que vão ao forno (isto deve ter um nome, mas eu desconheço-o), pôr primeiro a carne, depois o puré e, por último, cobrir com mais parmesão ralado. Vai ao forno entre treze a quinze minutos, para a superfície ficar douradinha. Tenho que acrescentar que não fui eu quem fez, mas sim a mesma pessoa que me impediu de usar carne de borrego em vez de vaca e porco.


Dizia eu lá atrás que The King’s Two Bodies é o livro mais relevante da minha vida. Não foi propriamente um fascínio imediato, até porque precisei de ler The Royal Remains do Eric L. Santner para compreender isso. São dois livros muito bons, mas onde o Santner consegue brilhar com uma parafernália de citações capaz de competir com o George Steiner (só para dar um exemplo, na página 106 cita Bataille, Kantorowicz, Shakespeare, Canetti, Kafka, Hitler e Badiou), o Kantorowicz apenas precisa do Shakespeare e alguma arte medieval. Isto acontece, em parte, porque o The King’s Two Bodies vira as costuras ao corpo da história e o Royal Remais segue de perto as linhas em que o tempo se cozeu. O propósito do Santner é megalómano: seguindo a teoria dos dois corpos do rei, na perspectiva aberta pelo trabalho de Kantorowicz, procurar descobrir o que aconteceu ao segundo corpo do rei, místico e imortal, depois da Revolução Francesa. A conclusão de Santner é que permaneceu, ainda que sob a forma de metáfora, tanto na ideia de excesso de carne que já se encontrava sublimemente expressa, por exemplo, na parte inferior túmulo de John Fitzalan, 14.º Conde de Arundel, que procurar capturar um cadáver em processo de apodrecimento, e que serviu de pano de fundo a muitos dos adornos que deram personalidade à paranoia da modernidade, como na construção do novo princípio da soberania que surgiu nos escombros da construção de Jean Bodin.

A Idade Média perspectivada pelo Kantorowicz é uma construção massiva. As grandes catedrais do estilo gótico levaram mais tempo a construir que os arranha-céus de Nova Iorque. Mas, mesmo assim, The Royal Remains é uma obra impressionante, sendo que uma parte fundamental do efeito que consegue está em reconhecer o contributo fundamental do Kantorowicz para a percepção daquilo que é o político no século XXI. E, ao contrário do Steiner, o name-dropping é muito menos um artefacto argumentativo usurpado aos juristas medievais e muito mais o corolário de um desejo quase demente de provar a prevalência do impulso político sobre qualquer outro traço humano.

“What needs to be kept in mind here is that the body of the citizen that is invested with the principle of sovereignty is no longer an instance of zoē, no longer a bare life in the sense of animal existence, but rather a life insofar as it is posited as bearer of the flesh, as giving – always precarious – corporeal locus and shape to the element that holds the place of the jointure of life and law. In order to fulfill their office, discharge their charge as the new bearer of the principle of sovereignty, the people must – just as the king of the ancien régime did – undergo the ordeal of gemination, acquire a second, sublime body, one that is, as we have seen, always haunted by the entsetzlich possibility of becoming so much creaturely flesh. Modern politics is always biopolitics not simply because the wealth of nations is now seen to reside in the well-being of its population but rather because the procedures of Setzen and Entsetzen, of positing and deposing, that formerly focused on the figure of the sovereign now transpire within the life of every citizen. In a word, the privilege and horror, the sublimity and abjection, of the flesh now belong in some sense to the fate of every member of the polity.”