Debaixo do Fogão
poesia e gastronomia
Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012
Em jeito de novidade e a partir de hoje
Os meus textos passam a ser publicados aqui, no The Girlfriend Thought Experiment.
Sexta-feira, 6 de Julho de 2012
Eles fazem humor por mim
Li no Bibliotecário de Babel que o José Luís Peixoto resolveu tatuar uma moldura vazia no antebraço para o pessoal que se cruza com ele desenhar lá o que quiser. Não quero, por isso, deixar de dar o meu contributo a esta obra colectiva e em progresso:
Quinta-feira, 5 de Julho de 2012
Depois de duas horas de exames orais...
Toda a gente gosta da Jessica Paré
Há uns tempos cortei relações com Mad Men. Cansei-me do argumento, da insistência numa forma de apresentar o Don Draper, da pouca qualidade de qualquer cena em que a January Jones abre a boca, de uma Joan sem qualquer picante…
Voltei a dar uma oportunidade à série, seguindo os episódios à medida que vão dando na rtp2 e tudo mudou. Alguns dos defeitos mantêm-se, mas a série mudou para melhor. E isso aconteceu, principalmente, por causa de uma canadiana:
Voltei a dar uma oportunidade à série, seguindo os episódios à medida que vão dando na rtp2 e tudo mudou. Alguns dos defeitos mantêm-se, mas a série mudou para melhor. E isso aconteceu, principalmente, por causa de uma canadiana:
Quarta-feira, 4 de Julho de 2012
Sporting 2012/2013
Terminado o Euro, é tempo de pré-época e de voltar a radicalizar as minhas opiniões sobre tudo o que não é do Sporting. Contudo, este ano vou alterar a minha atitude. De há uns anos para cá – vá, desde a época de 93/94 que é a primeira de que me lembro bem – que mantenho uma postura discreta durante a pré-época, como se um ligeiro exagero nas expectativas pudesse dar azar ou alguma coisa parecida à equipa, apenas entrando no fanatismo lá para a quarta jornada. Isto conduziu, sempre, a duas situações: ou o meu fanatismo, claramente, não tinha qualquer suporte na realidade; ou o meu fanatismo tinha todo o apoio na realidade.
Nunca fui um fanático esperançoso, sempre fui ou desesperado (alienado) ou racional (como é óbvio há um fanatismo racional no futebol, se bem que isso normalmente signifique ser adepto do Barcelona). Fui, durante muito tempo, um daqueles gajos que a propósito da mais recente aquisição do Sporting comenta coisas como “vamos ver se se adapta ao futebol português” ou “nunca ouvi falar deste gajo, tenho que o ver jogador”. A propósito de um guarda-redes dinamarquês cheguei a dizer “vamos ver se aguenta o ritmo competitivo do Sporting”.
Este ano decidi que vou mudar e vou permitir que todos os sonhos e promessas de pré-época encontrem ressonância no meu ânimo. Por enquanto, já contratámos uma espécie de Patrick Vieira e o Robben marroquino. É ver quem vem ainda.
(Mousse com cheirinho, no Sea me)
Aviso
Parece que o nepalês clandestino sobre o qual escrevi aqui mudou de sítio. Ainda não descobri onde se relocalizou, mas assim que o problema estiver resolvido dou notícias.
Entretanto deixo-vos com um video do novo jogador do Sporting:
Entretanto deixo-vos com um video do novo jogador do Sporting:
Terça-feira, 3 de Julho de 2012
Epicurismo revisitado
A natureza deste blogue, orientada por um princípio de prazer, tem que ser reafirmada e justificada de vez em quando. A época em que vivemos a isso obriga, para que isto não se torne um exercício fútil e cego. Sei de pessoas sérias e bem-intencionadas que andam a ler este blogue e, não sendo de todo essa minha postura na vida, é uma clientela que quero manter. Descobri também que os meus vizinhos conhecem o blogue e, por isso, é melhor andar com cuidado, porque pior que ter problemas no condomínio só mesmo ser obrigado, para toda a eternidade, a fazer cópias manuscritas do livro “a cobrição das filhas”.
De tempo a tempo – senão sempre – este blogue deve responder à pergunta: faz sentido o epicurismo no momento em que vivemos? Ou, pelo menos, faz sentido um constante apelo ao prazer e, claro, a uma vida boa e despreocupada, quando os alicerces que sustentam essa possibilidade começam a trazer à superfície o sangue sobre o qual foram construídos?
O primeiro nível de resposta é enfadonho, mas necessário. O epicurismo é uma doutrina política. Nos espaços negros que os princípios do estoicismo eram incapazes de justificar – por exemplo, como explicar a ligação natural entre religião, política e violência –, começou a surgir um epicurismo de feição moderna. Isto aconteceu a partir do século XVII e, principalmente, numa das maiores revoluções de história do pensamento político, a publicação do Leviathan (1651). Até Hobbes, o epicurismo não tinha necessariamente uma conotação política. Era, como na antiguidade, um exercício que procurava tornar possível a felicidade humana pessoal e, mais que isso, privada. Para eles, o homem encontra-se submetido a um assédio permanente do medo e da ignorância, o que lhes causa sofrimento. Para lidar com esse sofrimento, os homens inventaram os deuses, apenas para descobrir que, assim, o terror perante o desconhecido é ainda maior. Os epicuristas viam-se como os grandes arautos da inexistência ou, pelo menos, da indiferença dos deuses perante os homens. O cosmos, tal e qual Maquiavel o verá mais tarde, é um cruzamento inexplicável de átomos, a alma não é imortal. Face ao terror há que enfrentar a morte, aceitar a condição de projecto de apodrecimento que cada um de nós é e, assim, deslocar o foco da vida para as sensações desse corpo feito de carne, a única e verdadeira possibilidade.
Em Hobbes, pela primeira vez, a perspectiva epicurista adquire um sentido político. E fá-lo, em primeiro lugar, porque se estabelece definitivamente como uma polémica, isto é, como um instrumento de ataque à teologia política cristã imperante. A irrupção do projecto filosófico de Hobbes leva à rejeição de toda a teologia política, ainda que a ruptura por este provocada tenha sido preparada antes, de forma significativa, por Maquiavel. Rejeita-se, assim, uma compreensão da natureza partilhada pela filosofia clássica por “Atenas e Jerusalém”, por assim dizer. Segundo a Bíblia, ao homem é reservado um lugar na natureza, e ainda que o lugar implique o domínio sobre todas as criaturas terrestres, o mesmo não equivale ao domínio sobre o todo, sobre a própria natureza. Esta ideia harmoniza-se perfeitamente com o pensamento clássico segundo o qual a justiça consiste no respeito da ordem natural. Em corte profundo com este modo de ver, a partir de Hobbes e Maquiavel, o estabelecimento e a manutenção da sociedade política passa a ser entendido como um problema técnico: não existe povo, por mais corrupto, que não possa ser governado se sujeito às instituições adequadas. Esta mudança foi possível graças a uma inflexão na concepção clássica do direito natural com o direito de autopreservação do indivíduo concebido com independente e prévio a qualquer obrigação ou dever. Longe da inconsequência, o direito natural conservador da teologia cristã transforma-se num direito natural revolucionário.
Há, ainda, outra perspectiva segundo a qual o epicurismo de Hobbes adquire um sentido político. As primeiras páginas do Leviathan são dedicadas às sensações. O Estado deve, assim, cumprir uma função essencial, a manutenção de uma situação de paz que permita a cada homem disfrutar dos prazeres proporcionados pelos sentidos. É a isto que se pode chamar, com alguma simplicidade, de princípio do prazer. Perfeitamente enquadrado no absolutismo de Hobbes, este princípio foi transferido e aumentado no ambiente liberal que se lhe seguiu. É, ainda, este princípio que sustenta uma crítica fundamentada e significativa ao desenvolvimento capitalista do liberalismo. A orientação epicurista deste blogue tem, também, este sentido, o da defesa de um acesso universal e fraterno ao prazer e o da crítica de qualquer instituição que, sob o pretexto de libertar e melhorar o homem, tenha como decorrência a negação ou a restrição deste princípio.
De tempo a tempo – senão sempre – este blogue deve responder à pergunta: faz sentido o epicurismo no momento em que vivemos? Ou, pelo menos, faz sentido um constante apelo ao prazer e, claro, a uma vida boa e despreocupada, quando os alicerces que sustentam essa possibilidade começam a trazer à superfície o sangue sobre o qual foram construídos?
O primeiro nível de resposta é enfadonho, mas necessário. O epicurismo é uma doutrina política. Nos espaços negros que os princípios do estoicismo eram incapazes de justificar – por exemplo, como explicar a ligação natural entre religião, política e violência –, começou a surgir um epicurismo de feição moderna. Isto aconteceu a partir do século XVII e, principalmente, numa das maiores revoluções de história do pensamento político, a publicação do Leviathan (1651). Até Hobbes, o epicurismo não tinha necessariamente uma conotação política. Era, como na antiguidade, um exercício que procurava tornar possível a felicidade humana pessoal e, mais que isso, privada. Para eles, o homem encontra-se submetido a um assédio permanente do medo e da ignorância, o que lhes causa sofrimento. Para lidar com esse sofrimento, os homens inventaram os deuses, apenas para descobrir que, assim, o terror perante o desconhecido é ainda maior. Os epicuristas viam-se como os grandes arautos da inexistência ou, pelo menos, da indiferença dos deuses perante os homens. O cosmos, tal e qual Maquiavel o verá mais tarde, é um cruzamento inexplicável de átomos, a alma não é imortal. Face ao terror há que enfrentar a morte, aceitar a condição de projecto de apodrecimento que cada um de nós é e, assim, deslocar o foco da vida para as sensações desse corpo feito de carne, a única e verdadeira possibilidade.
Em Hobbes, pela primeira vez, a perspectiva epicurista adquire um sentido político. E fá-lo, em primeiro lugar, porque se estabelece definitivamente como uma polémica, isto é, como um instrumento de ataque à teologia política cristã imperante. A irrupção do projecto filosófico de Hobbes leva à rejeição de toda a teologia política, ainda que a ruptura por este provocada tenha sido preparada antes, de forma significativa, por Maquiavel. Rejeita-se, assim, uma compreensão da natureza partilhada pela filosofia clássica por “Atenas e Jerusalém”, por assim dizer. Segundo a Bíblia, ao homem é reservado um lugar na natureza, e ainda que o lugar implique o domínio sobre todas as criaturas terrestres, o mesmo não equivale ao domínio sobre o todo, sobre a própria natureza. Esta ideia harmoniza-se perfeitamente com o pensamento clássico segundo o qual a justiça consiste no respeito da ordem natural. Em corte profundo com este modo de ver, a partir de Hobbes e Maquiavel, o estabelecimento e a manutenção da sociedade política passa a ser entendido como um problema técnico: não existe povo, por mais corrupto, que não possa ser governado se sujeito às instituições adequadas. Esta mudança foi possível graças a uma inflexão na concepção clássica do direito natural com o direito de autopreservação do indivíduo concebido com independente e prévio a qualquer obrigação ou dever. Longe da inconsequência, o direito natural conservador da teologia cristã transforma-se num direito natural revolucionário.
Há, ainda, outra perspectiva segundo a qual o epicurismo de Hobbes adquire um sentido político. As primeiras páginas do Leviathan são dedicadas às sensações. O Estado deve, assim, cumprir uma função essencial, a manutenção de uma situação de paz que permita a cada homem disfrutar dos prazeres proporcionados pelos sentidos. É a isto que se pode chamar, com alguma simplicidade, de princípio do prazer. Perfeitamente enquadrado no absolutismo de Hobbes, este princípio foi transferido e aumentado no ambiente liberal que se lhe seguiu. É, ainda, este princípio que sustenta uma crítica fundamentada e significativa ao desenvolvimento capitalista do liberalismo. A orientação epicurista deste blogue tem, também, este sentido, o da defesa de um acesso universal e fraterno ao prazer e o da crítica de qualquer instituição que, sob o pretexto de libertar e melhorar o homem, tenha como decorrência a negação ou a restrição deste princípio.
Esqueçam agora qualquer sentido político. “Sooner or later in life everyone discovers that perfect happiness is unrealizable, but there are few who pause to consider the antithesis: that perfect unhappiness is equally unattainable. The obstacles preventing the realization of both these extreme states are of the same nature: they derive from our human condition which is opposed to everything infinite” (Primo Levi, Is This a Man). A presença do prazer no espaço entre estes dois extremos é, em certa medida, um milagre. O epicurismo, contudo, não fulmina por si a questão teológica. Pior, tal com ela, também se alicerça num mito e numa ficção. “Mysticism, when transposed from the warm twilight of myth and fiction to the cold searchlight of fact and reason, has usually little left to recommend itself. Its language, unless resounding within its own magic or mystic circle, will often appear poor and even slightly foolish, and its most baffling metaphors and highflown images, when deprived of their iridescent wings, may easily resemble the pathetic and pitiful sight of Baudelaire's Albatross” (Ernst Kantorowicz, The King’s Two Bodies). É por isto que o prazer, por si, pouco tem de recomendável quando estão ausentes os seus rituais.
Este blogue constrói-se, também, na felicidade deste desajustamento. Não posso partilhar o prazer sem o despir do seu misticismo, sem o submeter aos rigores da factualidade. Posso, contudo, partilhar os seus rituais – uma refeição, uns preliminares –, partilhar não o prazer mas o misticismo do prazer. Pode parecer uma simples questão de terminologia, mas é por isso mesmo que aqui se fazem críticas de refeições e não críticas de comida. Não há um pingo de arte na comida, é pura sensação. Uma refeição apenas responde a uma pergunta: deu ou não prazer? Logo, não é o prazer que se partilha, mas o processo ritualístico que a ele conduziu. O prazer é como o deus agostiniano, indeterminístico. O prazer e a dor são as únicas coisas verdadeiramente privadas. Os seus rituais são comunicáveis, o prazer e a dor não. Aprendemos a comer, tal como aprendemos a enterrar os mortos. Mas sozinhos é que deixamos – ou não – alguma carne agarrada aos ossos.
(spaghetti al pomodoro, com camarão em tempura, no Sea Me)
Quinta-feira, 28 de Junho de 2012
Segunda-feira, 25 de Junho de 2012
Crows to peck eagles
“My method is simple: not to aim at poetry. That must come of its own accord. The mere whispered mention of its name frightens it away. I shall try to build a table. It will be up to you then to eat at it, to examine it or to chop it up for firewood.”
-Cocteau, Beauty and the Beast: Diary of a Film (1947)
Sexta-feira, 22 de Junho de 2012
Prego ou bifana? Aqui está uma questão fracturante. Não implica necessariamente uma questão de exclusão absoluta da alteridade, como ser do Sporting ou daquela outra bosta, mas não deixa de ser algo que divide. Quando há pregos e bifanas disponíveis, o que pedir?
Eu peço prego. Como já aqui expliquei, passei uma parte da minha vida sem tocar em chicha de porco e se é verdade que isso, hoje em dia, me faz gostar mais da carne dos bácoros e seus enchidos vários do que uma pessoa normal, também é verdade que me impediu de criar hábitos ancestrais relativamente ao porco. O porco para mim é, ainda, ingerido com um certo aspecto de novidade. A escolha entre prego ou bifana não é coisa que se possa fundar em tendências recentes ou manias passageiras. É um gosto que remonta aos tempos primitivos da nossa experiência gastronómica pessoal e, nesses dias da minha existência, eu não comia porco e, logo, só comia pregos.
O prego da Petiscaria Ideal é, até ao momento, o melhor que já comi. Mas é um prego relativamente evoluído e inclui cogumelos. É ainda um prego, não se afasta estupidamente do conceito, mas não é como os pregos daquelas roulottes do viaduto da 2.ª Circular ao pé do Estádio de Alvalade. O prego do Ramiro é muito bom também e está mais próximo de um prego básico, carregado de alho. O do Galeto tem os seus dias, apesar de ser o prato que mais vezes peço. O prego a martelo, que inclui queijo e presunto é também bom, mas já parece mais uma sandes de carne.
O meu prego fetiche do momento é o do Sea Me. É um restaurante de peixe, sobre o qual já aqui escrevi, mas tem um prego em bolo do caco e com manteiga de alho, que é uma coisa simplesmente deliciosa.
Eu peço prego. Como já aqui expliquei, passei uma parte da minha vida sem tocar em chicha de porco e se é verdade que isso, hoje em dia, me faz gostar mais da carne dos bácoros e seus enchidos vários do que uma pessoa normal, também é verdade que me impediu de criar hábitos ancestrais relativamente ao porco. O porco para mim é, ainda, ingerido com um certo aspecto de novidade. A escolha entre prego ou bifana não é coisa que se possa fundar em tendências recentes ou manias passageiras. É um gosto que remonta aos tempos primitivos da nossa experiência gastronómica pessoal e, nesses dias da minha existência, eu não comia porco e, logo, só comia pregos.
O prego da Petiscaria Ideal é, até ao momento, o melhor que já comi. Mas é um prego relativamente evoluído e inclui cogumelos. É ainda um prego, não se afasta estupidamente do conceito, mas não é como os pregos daquelas roulottes do viaduto da 2.ª Circular ao pé do Estádio de Alvalade. O prego do Ramiro é muito bom também e está mais próximo de um prego básico, carregado de alho. O do Galeto tem os seus dias, apesar de ser o prato que mais vezes peço. O prego a martelo, que inclui queijo e presunto é também bom, mas já parece mais uma sandes de carne.
O meu prego fetiche do momento é o do Sea Me. É um restaurante de peixe, sobre o qual já aqui escrevi, mas tem um prego em bolo do caco e com manteiga de alho, que é uma coisa simplesmente deliciosa.
Prometeram-me que na Casa da Comida há um prego ainda melhor que este. Espero bem que sim, porque nestas coisas é como no futebol. O Sporting poderia sempre jogar melhor, os pregos podem ser sempre melhores.
Quinta-feira, 21 de Junho de 2012
You are welcome to hell señor
Enquanto fui ampleando o número de coisas que consigo cozinhar, fui também reduzindo o número de refeições fornecidas pela Telepizza ou pela Mc'Donalds. Há cerca de seis meses, acho eu, que não metia os pés no Drive In da BP da Padre Cruz, que dantes era uma espécie de pólo de atracção nos meus regressos a casa quando saía da faculdade. Variava sempre. Se num dia comia McChicken e dois dias depois voltava lá, como um McRoyal ou uma salada mais nuggets. Na sobremesa variava também entre um super sundae de chocolate ou uma tarte de maçã. Eu sou de Elvas, que fica na fronteira com Badajoz e por isso estava mais habituado a fazer os meus pedidos no Mac em espanhol. Já dei por mim a pedir um "pastel" de maçã, uma "salsa barbacoa" ou, o pior de todos, um "McPollo".
Ontem, enquanto esperava por um McChicken com fanta e batatas fritas grandes, a senhora da caixa vira-se para uma colega e diz-lhe: "isto aqui é tudo uma cambada de fufas".
Exercícios de crítica da Scarlett
Quarta-feira, 20 de Junho de 2012
You may my glories and my state depose. But not my griefs, still I am king of those
Trabalhei na zona do Chiado durante seis meses, num escritório na Rua do Alecrim. Na altura ainda havia Subway na zona e ainda não havia Quinoa. O melhor de trabalhar, tanto naquele emprego como naquela zona, era a hora de almoço e a hora de saída. Descobri, com a experiência de trabalhar, que a vontade de sair ou a perspectiva de uma boa actividade pós-laboral me fazem ser mais eficiente. Estar a 5 minutos de uma parte bastante significativa dos meus espaços preferidos de Lisboa tornava o trabalho mais uma missão que um fardo. As horas em frente ao computador, cercado por livros sobre direito da propriedade industrial, eram animadas pela necessidade de tomar uma decisão sobre o que fazer depois do trabalho para me entreter ali pela zona.
Nota-se que falo disto com alguma melancolia. Mas não é bem assim, porque é bem melhor poder passar por lá no final da manhã, tomar um brunch na Kaffeehaus e ler uma passagem do Kantorowicz com um café na mesa.
“«The Phoenix is a unique and most singular bird in which the whole kind (genus) is conserved in the individual». Evidently, Baldus had a clear analogy in mind. To him the Phoenix represented one of the rare cases in which the individual was at once the whole existing species so that indeed the species and individual coincided. The species, of course, was immortal; the individual mortal. The imaginary bird therefore disclosed a duality: it was at once Phoenix and Phoenix-kind, mortal as an individual, though immortal too, because it was the whole kind. It was at once individual and collective, because the whole species reproduced no more than a single specimen at a time. […]
Nota-se que falo disto com alguma melancolia. Mas não é bem assim, porque é bem melhor poder passar por lá no final da manhã, tomar um brunch na Kaffeehaus e ler uma passagem do Kantorowicz com um café na mesa.
“«The Phoenix is a unique and most singular bird in which the whole kind (genus) is conserved in the individual». Evidently, Baldus had a clear analogy in mind. To him the Phoenix represented one of the rare cases in which the individual was at once the whole existing species so that indeed the species and individual coincided. The species, of course, was immortal; the individual mortal. The imaginary bird therefore disclosed a duality: it was at once Phoenix and Phoenix-kind, mortal as an individual, though immortal too, because it was the whole kind. It was at once individual and collective, because the whole species reproduced no more than a single specimen at a time. […]
With all that, the lore of the Phoenix tied in smoothly, since it stressed almost without exception the personal identity of the dead Phoenix with his living successor; and other popular legal maxims strengthened that comparison. Mortus aperit oculos viventis, the dead opens the eyes of the living.”
Terça-feira, 19 de Junho de 2012
eine gefräßige Zustand des Geistes
Ancient Aliens
A vida de um professor/investigador inclui necessariamente momentos de total reclusão. Pilhas de exames para corrigir ou prazos de entrega de relatório para cumprir são coisas que obrigam uma pessoa a fechar-se em casa dias atrás de dias, o que em gente da minha laia normalmente significa uma inversão total dos horários que a minha mãe, coitada, levou anos a disciplinar. Deito-me mais ou menos meia hora depois de o sol nascer, quando a Espigasol já tem croissants com chocolate à venda. Levanto-me da mesa de trabalho, vou à rua comprar os tais croissants. Meto um no bucho e guardo outro para o pequeno-almoço que será às quatro da tarde, vou para o quarto, ponho tampões de cera nos ouvidos e adormeço por volta das nove da manhã.
No inverno, uma vez, aconteceu passar três dias de seguida sem ver a luz do sol, porque dormia durante o dia e trabalhava a noite toda. Decidi regressar ao convívio do sol quando dei por mim a sentir-me perseguido pelo Wesley Snipes.
Outra coisa que me costuma acontecer nestes períodos de reclusão é ver, nos momentos de pausa, programas de televisão que em condições mentais normalizadas me fariam mudar logo de canal. Vi, por exemplo, a final do programa A Tua Cara Não me É Estranha. Um dos concorrentes chama-se FF que é uma versão em haiku duma piada muito boa do Louie CK sobre o facto de nos EUA não haver limitações para o nome que se pode dar aos filhos. Surpreendeu-me o júri ser tão bonzinho e elogioso com os concorrentes, mas depois disseram-me que se trata do mesmo painel que escolheu os nomeados portugueses para o Prémio PT e aí as coisas fizeram um pouco mais de sentido.
Mas, de entre todos os programas que vi neste período de reclusão, nenhum é comparável com a minha série do momento: Ancient Aliens, que dá no Canal História. Bom, há outro que é comparável e que este post da Pólo Norte me recordou, o Mob Wives, que dá no TLC e que, assim em termos genéricos, versa sobre o dia-a-dia das esposas de mafiosos americanos, cadastrados e encarcerados, num quotidiano que normalmente acaba em cocktails e puxões de cabelos com uma parafernália de insultos em inglês e italiano um verão em Florença e anos de Cambridge Institute nunca me proporcionaram. Para colocar a coisa no seu devido sítio, a televisão só desceria mais baixo se passasse imagens de um gajo a comer bocados da própria cabeça ou, então, de um duche do José Luis Peixoto.
Mas regressando ao Ancient Aliens, trata-se de um documentário em vários episódios que tem como tese central a colaboração de seres alienígenas em praticamente tudo o que de relevante aconteceu na história da humanidade, desde a Suméria até aos Descobrimentos, passando pelo Antigo Testamento, a peste justinianeia, a peste negra e tudo e mais alguma coisa.
O que é que esta série tem de especial? Várias coisas. Em primeiro lugar, porque é um prodígio da argumentação científica. Dou um exemplo. Pegam em episódios bíblicos com o dilúvio ou a imaculada concepção e dizem “isto não é plausível”. Até aqui tudo bem, porque realmente acreditar que antes do mundo ficar todo submerso em água um tipo conseguiu reunir um casal de animais de todas as espécies ou que um dia a Maria ficou prenha por vontade de Deus, sem qualquer contacto precedente com uma pila israelita, faz pouco sentido. Contudo, depois vem a explicação “plausível”: afinal a arca de Noé não era um barco enorme mas, antes, um banco de ADN e a imaculada concepção foi uma inseminação artificial alienígena.
Outros brilhantismos argumentativos desta série estão relacionados com artefactos antigos. Por exemplo, esta peça oriunda do Antigo Egipto:
No inverno, uma vez, aconteceu passar três dias de seguida sem ver a luz do sol, porque dormia durante o dia e trabalhava a noite toda. Decidi regressar ao convívio do sol quando dei por mim a sentir-me perseguido pelo Wesley Snipes.
Outra coisa que me costuma acontecer nestes períodos de reclusão é ver, nos momentos de pausa, programas de televisão que em condições mentais normalizadas me fariam mudar logo de canal. Vi, por exemplo, a final do programa A Tua Cara Não me É Estranha. Um dos concorrentes chama-se FF que é uma versão em haiku duma piada muito boa do Louie CK sobre o facto de nos EUA não haver limitações para o nome que se pode dar aos filhos. Surpreendeu-me o júri ser tão bonzinho e elogioso com os concorrentes, mas depois disseram-me que se trata do mesmo painel que escolheu os nomeados portugueses para o Prémio PT e aí as coisas fizeram um pouco mais de sentido.
Mas, de entre todos os programas que vi neste período de reclusão, nenhum é comparável com a minha série do momento: Ancient Aliens, que dá no Canal História. Bom, há outro que é comparável e que este post da Pólo Norte me recordou, o Mob Wives, que dá no TLC e que, assim em termos genéricos, versa sobre o dia-a-dia das esposas de mafiosos americanos, cadastrados e encarcerados, num quotidiano que normalmente acaba em cocktails e puxões de cabelos com uma parafernália de insultos em inglês e italiano um verão em Florença e anos de Cambridge Institute nunca me proporcionaram. Para colocar a coisa no seu devido sítio, a televisão só desceria mais baixo se passasse imagens de um gajo a comer bocados da própria cabeça ou, então, de um duche do José Luis Peixoto.
Mas regressando ao Ancient Aliens, trata-se de um documentário em vários episódios que tem como tese central a colaboração de seres alienígenas em praticamente tudo o que de relevante aconteceu na história da humanidade, desde a Suméria até aos Descobrimentos, passando pelo Antigo Testamento, a peste justinianeia, a peste negra e tudo e mais alguma coisa.
O que é que esta série tem de especial? Várias coisas. Em primeiro lugar, porque é um prodígio da argumentação científica. Dou um exemplo. Pegam em episódios bíblicos com o dilúvio ou a imaculada concepção e dizem “isto não é plausível”. Até aqui tudo bem, porque realmente acreditar que antes do mundo ficar todo submerso em água um tipo conseguiu reunir um casal de animais de todas as espécies ou que um dia a Maria ficou prenha por vontade de Deus, sem qualquer contacto precedente com uma pila israelita, faz pouco sentido. Contudo, depois vem a explicação “plausível”: afinal a arca de Noé não era um barco enorme mas, antes, um banco de ADN e a imaculada concepção foi uma inseminação artificial alienígena.
Outros brilhantismos argumentativos desta série estão relacionados com artefactos antigos. Por exemplo, esta peça oriunda do Antigo Egipto:
Para uma pessoa normal trata-se de um pássaro. Para pessoas cuja formação científica é tão elaborada quanto a criatividade do João Tordo, é uma representação de um avião. Para melhorar a coisa, a certo momento do episódio aparece um homem a dizer que se colocarmos um motor, uma hélice e um estabilizador horizontal numa cópia em maior escala do artefacto, ele voa. Claro que sim, se pegarmos no António Carlos Cortez e lhe dermos inteligência, capacidade argumentativa, rectidão e sensibilidade poética também temos um crítico literário, mas sem isso temos só o António Carlos Cortez, uma pessoa com dificuldades especiais, como, por exemplo, dizer “pénis” na televisão.
Outra coisa gira do Ancient Aliens é a fauna que por lá mora. No fundo, o programa é o sucessor natural de um que dava nos tempos de ouro da televisão portuguesa e que era o Programa do Além, apresentado pela Teresa Guilherme. Um dos principais “estudiosos” da matéria e que em quase todos os episódios tece argumentos “muito sérios” (já estou a abusar um bocadinho das aspas hoje), chama-se Giorgio Tsoukalos, cujo cabelo tem estranhas reminiscências na poesia portuguesa:
Terça-feira, 5 de Junho de 2012
No meu gmail só tenho receitas e mails da minha mãe (e mails de ódio para o Polga e o Postiga)
Andava eu a pensar ir a Israel e eis que descubro esta notícia. Não que eu seja árabe mas, tendo em conta a barba com que ando, ainda me tomam por tal e depois lá tenho que mostrar os emails da minha mãe a perguntar se ando a comer menos e se desliguei o gás antes de sair de casa.
Restaurante Encanto Mediterrâneo
Tenho memórias conflituantes sobre a Grécia, como se na minha cabeça se travasse uma espécie de guerra civil entre a pior impressão possível e a mais doce recordação. Atenas é uma das capitais europeias mais feias. Estive lá em 2005 e, tirando a Acrópole, pareceu-me que o resto da cidade era composto por prédios sujos com construções clandestinas nos últimos andares. Atravessei o Peloponeso de autocarro, com três catalães insuportáveis e dois americanos do Louisiana, e cada área de serviço em que parava parecia um círculo do inferno mais gravoso que o anterior. Quando cheguei ao porto, para apanhar o ferry, a esperança na morte já não me parecia menos aconchegada que o desejo por uma cama lavada. Depois mais duas horas ainda de viagem, uma de ferry e uma de autocarro outra vez, para chegar às seis da manhã a uma pequena terriola na encosta de uma serra que desce até ao Adriático. Do alto da serra, enquanto o autocarro descia, tive impressões do paraíso. Logo a seguir regressei ao inferno, um hostel em que parecia ter acontecido uma espécie de Blitzkrieg e que, de repente, transformava uma das mais belas visões helénicas num prédio de Berlim Oriental.
Durou um dia o suplício. Na manhã seguinte acordei cedo e mudei as malas para uma pensão a 200 metros daquele Brandenburger Tor em tanga. Mudei para uma pensão de gregos, de uma família grega em que o pai era uma pessoa adorável e tinha um bigode enorme e os três filhos – um rapaz e duas raparigas – trabalhavam todos na pensão. Agios Gordis fica em Corfu. É uma aldeola que ocupa os últimos 400 metros de encosta até ao mar e em que quase todas as construções são hotéis ou pensões ou restaurantes. Na rua principal, que termina na praia, lembro-me pelo menos de uns 15 restaurantes. Experimentei uns 10 e comi bem em todos. Nalguns comi demasiado bem para ser verdade. A praia não era muito espaçosa e também estava cheia de alemães, mas a água e a paisagem da serra por trás compensavam tudo. Fui para a Grécia à procura de uma ideia de paraíso que tinha e descobri o inferno, para depois descobrir um outro tipo de paraíso. O veículo para esta transformação foi a comida grega, da qual já tinha tido uns pequenos vislumbres em Atenas, mas que no meio daquela ilha do Mediterrâneo me aproximou a níveis de felicidade gastronómica que só experimentei na primeira vez que comi sushi de grande qualidade ou no St. John Bread and Wine.
Cozinho bastante comida grega em casa. O molho de iogurte é o dressing normal das minhas saladas, tenho sempre queijo feta no frigorífico e até já esferifiquei tzatziki. Também já fiz moussaka umas vezes e spanakopita, que é uma espécie de tarte, parecida com um burek, com queijo feta e espinafres. E, claro, uma das minhas sobremesas preferidas em todo o mundo é iogurte com nozes, mel e canela. Esta minha especialização em comida grega tem uma razão de ser. É complicado encontrar este tipo de restaurante em Lisboa e aqueles que conhecia, até agora, eram fraquinhos.
Ontem fui a um restaurante grego/libanês no Parque das Nações. Chama-se Encanto Mediterrâneo e fica a 20 metros, mais ou menos, da Brasserie de L’Entrecôte. Acho que a rua se chama Alameda dos Oceanos, mas também pode ser rua do Pólo Norte ou Beco do Afonso de Albuquerque ou Ruela dos Peixinhos da Horta, bom, estão a perceber a ideia. Fica ao lado da Brasserie, pronto. Aquilo que aqui escrevi serviu para que percebam que desconfio dos restaurantes gregos fora da Grécia, da mesma forma que desconfio dessas imitações mal-amanhadas do Kavafis que por aí andam a publicar poesia toponímica. No fundo, é como ver aquele programa de imitações da TVI.
Mas regressando aos tal grego/libanês, ontem o menu era bastante limitado à partida. Um menu de degustação que incluía uma série de entradas e depois quatro porções de pratos gregos e libaneses, neste caso: calamares com tzatziki, moussaka, arroz de passas e camarões em molho de especiarias e cogumelos.
Gostei de todas as entradas, à excepção de uma beringela grelhada, coberta com um molho escuro e ácido. A casca da beringela estava carbonizada e desfazia-se em pequenos pedaços muito desagradáveis na boca. A salada grega estava boa, mas com tanto pepino e pimentos não é a coisa mais recomendável para a digestão de um jantar. A primeira entrada de todas foi a minha preferida, fatias de melão com rúcula selvagem e molho de iogurte, que é, no fundo, a melhor apresentação possível daquilo que é o sabor da comida grega. O pão de pita estava um bocadinho duro, mas o húmus (de grão e de cenoura), o caviar de beringela e o molho de pimento vermelho com queijo feta compensaram pelo sabor.
Dos pratos principais, achei o arroz absolutamente indiferente e os calamares normais, com a vantagem da massa estar bem crocante. A moussaka estava perfeita, com o sabor a canela como deve ser. Os camarões, que estavam deliciosos, foram uma grande surpresa. Estava à espera de uma coisa parecida com os camarões salteados em alho e piripiri, mas afinal estavam mais perto de uns camarões com molho Thai (acompanhados por espuma de vodka e gengibre) que comi num restaurante de cozinha molecular.
Já a sobremesa foi uma decepção ambivalente. Não tinham nenhuma das minhas sobremesas gregas preferidas e a que pedi, uma massa de cabelo de anjo com mel, canela e nozes, estava mázinha.
Tendo em conta o que se paga para comer tanta coisa e, há que dizê-lo, com qualidade geral bastante aceitável, é um lugar mais do que recomendável. Contudo, à excepção dos camarões, que não sei bem de que teologia política os sacaram, o resto dos pratos pode muito bem ser cozinhado em casa sem grande dificuldade. A moussaka que eu faço não é tão boa, mas anda lá perto e o meu molho de iogurte é igual ao deles. Além disso, sei cozinhar comida grega que nem aparece na ementa deles. Levam 15 pontos.
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